E Viveram Felizes Para Sempre
Aqui há dias falava com uma amiga sobre uma outra amiga dela que tinha casado há coisa de 3 meses, com o seu namorado de sempre, que, entre os habituais encontros e desencontros da vida, acabaram mesmo por casar um com o outro.
Como é uma história que acompanho de longe há pelo menos 7 anos, gostei de saber que o casamento foi bonito, a lua-de-mel super romântica e que ela estava muito feliz com a nova vida de casada e com as surpresas - umas mais agradáveis que outras - do dia-a-dia, uma vez que, além de umas férias juntos aqui e ali, nunca tinham vivido juntos.
No entanto, ao descortinar algumas peripécias da vida de casada que a minha amiga animadamente me foi relatando, ouvi o seguinte:
- "... eles nunca se encontram na casa de banho, ele não quer vê-la a fazer xixi, nem sequer admite ter conhecimento que ela faz a depilação. Para ele, ela tem que aparecer sempre perfeita e "no ponto", ela que faça o que quiser e como quiser, desde que não seja à frente dele. Simplesmente não entra na casa de banho quando ela lá está e vice versa..."
E aqui, exactamente neste ponto, caiu-me o sorriso típico de quem ouve um conto de fadas de pessoas reais. Porque é exactamente disso que se trata, de pessoas reais. Não estamos a falar da Cinderela nem da Branca de Neve, cujas estórias não mencionam o facto da Cinderela ter tirado o buço antes do Baile e ter feito a exfoliação aos pés quando soube que o Príncipe andava pela cidade a experimentar sapatos de cristal em tudo o que era donzelas, ou que tampões usava a Branca de Neve para conseguir dormir tempos infinitos sem lhe vir o período.
Estamos a falar, repito, de duas pessoas reais, cujo compromisso foi o de viverem juntos até que a morte - ou o divórcio - os separe.
Claro que não estou à espera que a partilha de um casal seja total e absoluta. Percebo e sou apologista da intimidade de cada um, e embora conheça casos em que faça o que se fizer na casa de banho, o outro pode sempre entrar, pessoalmente não consigo fazer um "número 2" com presenças alheias, com a excepção das minhas gatas. Sei também que na intimidade, principalmente da casa de banho, cada um tem as suas manias e os seus limites no que toca à partilha, limites esses que devem ser respeitados.
O que me chocou foi a palavra "perfeita". Se ele se recusa a creditar que a mulher tem pelos nas pernas, o que será quando forem velhinhos e ela precisar de ajuda para tomar banho ou para mudar a fralda?
A vida a dois não é só feita de sorrisos, fotografias, jantares românticos, discussões de portas a bater, aneis no dedo, flores e amuos. É também de mau hálito matinal, pelos nas pernas, um arroto aqui e ali, limpeza de dentes com fio dental, cabelos despenteados e olheiras.