sexta-feira, outubro 27, 2006

Dass!!!!
Ao que parece, a hora de almoço devia chamar-se "hora de enervar o próximo com tamanha azelhice", ou talvez "hora da hesitação do dedo indicador", ou ainda "hora filha da puta para quem só quer levantar dinheiro para o almoço".
É do mais típico que há: são velhos, têm óculos e vão ao multibanco. Muitas contas para pagar, ficam horas infinitas num dedilhar hesitante no teclado do multibanco, de olhar franzido a confirmar os números no ecrã e na folhinha, a contemplar o recibo, a arrumar cartões e a dobrar papeis na carteira sem se desviarem da merda da máquina!
Por favor, peçam a reforma antecipada de forma a terem todo o tempo do mundo para se deslocarem nos vossos veículos pseudo-automóveis e se dirigirem às tesourarias, deixando, de uma vez por todas, em paz todo o infeliz que só tem uma miserável hora de almoço!

quinta-feira, outubro 26, 2006

Baú das Recordações

Ao chegar a Macau com 10 anos de idade, o que mais me custou foi a repentina falta de referências da minha vida em Portugal. Levei o meu Urso Sarafim, três fotografias com o meu grupo de amigos lá da rua, que ficaram num estado miserável à custa de tantos apertos e lágrimas de saudades, e pouco mais. Os primeiros tempos foram, sem dúvida, muito difíceis!
Quando a decisão de sair de Macau e voltar para Portugal se tornou definitiva eu tinha 18 anos e lembro-me que a minha maior preocupação foi juntar numa espécie de arca tudo o que pudesse levar de recordações dos últimos oito anos.
Esse caixote foi selado e marcado a caneta preta "Coisas da Mia. Top Completamente Secret". Viajou 18.000 km de barco, durante dois meses dentro de um contentor, para vir parar ao 3º andar de um prédio em Lisboa. Cheguei a Portugal há mais de seis anos e só ontem à noite é que me senti capaz de o abrir.
Nem dá para imaginar a quantidade de recordações que o caixote me trouxe. A minha primeira carta de amor - estavam lá mais, mas não há carta de amor como a primeira -, textos escritos por mim que ganharam prémios na escola, cadernetas de estudante desde o 5º ano, correspondência infinita entre mim e a Filipa - embora vivessemos no mesmo prédio e no mesmo andar -, textos de todas as peças de teatro que fiz, fotografias das mesmas, os diários, uma carta aberta à directora de turma do 9º ano, bilhetinhos patéticos de colegas com combinações de bate-pé e de curtes atrás do pavilhão, cassetes de vídeo com novelas que inventava com as minhas amigas, mapas de Macau, bilhetes dos concertos de Santos e Pecadores, Xutos e Pontapés, Madredeus, Pedro Abrunhosa, Delfins, bilhetes de avião para a Tailândia, bonecada que não acaba mais, um copo de shot "Gold Strike", postais, velas, listas de desejos para 1992/3/4/5/6... e em todas elas o desejo número um era "Que o Zé Madeira grame de mim", bases de copos dos bares, um maço vazio de Marlboro, bilhetes de festas de finalistas, um jogo dos espíritos, um dossier com recortes do Bon Jovi, do Jared Leto, do Tom Cruise, do FCP, do Jim Morrison...
Fiz uma viagem incrível por aquilo que já foi o meu Mundo. Ri-me, emocionei-me, tive vergonha, encontrei coisas que já lhes perdi o significado, outras não as consegui ler.
A noite de ontem durou oito anos e tinha o aroma doce dos templos chineses.

segunda-feira, outubro 23, 2006

...
Quando o sol começa a baixar, começam todos a vir aqui para fora. A maior parte deles não sabe que horas são, mas parece que sentem quando os vêem buscar. Agora no Inverno chegam cada vez mais cedo, e começam a ficar inquietos por ninguém aparecer e já ser tão escuro.
A mim ninguém me vem buscar. Já não tenho ninguém.
Vivi com a minha irmã Marquinhas oitenta e três anos. Nunca casei por isso não tenho filhos, mas nunca senti falta. Estive muito tempo de luto, sabe. E naquela altura o luto era uma coisa muito pesada.
O meu pai morreu éramos ainda jovens e ficámos cinco anos de luto. Depois morreu a minha mãe e quando estávamos para ficar mais cinco anos, morreram-nos cinco tios na Venezuela.
Ao todo, foram 17 anos de luto. Eu e a a Mariquinhas.
Lembro-me dos meus tios da terra nos tentarem convencer a tirar o luto, que o que era demais era bastante, mas nós já não conseguíamos.
Um dia, uma vizinha comprou-nos umas saias assim castanhitas e umas camisas brancas com um bordadinho na gola. Eram bem lindas! Eu e a Mariquinhas ficámos três horas em frente ao espelho sem conseguir olhar para nós. Tínhamos tanta vergonha que parecia que estávamos despidas. Credo, íamos lá agora nesses propósitos para a igreja! Deus nos livre!
Primeiro começámos a deixar o véu em casa. E depois foi assim a pouco e pouco, mas sempre com muita vergonha.
Quando deixámos o luto, já éramos mulheres e depois era um disparate ir aos bailes e às festas. Quanto mais casar! Nunca tive um namorado. Nem a Mariquinhas.
Dávamo-nos muito bem! Era um gosto que a mãezinha tinha, eram aquelas filhas que se davam tão bem.
Quando eu queria comprar alguma coisa perguntava sempre E tu que dizes, Mariquinhas? e ela respondia sempre Tu é que sabes Preciosa, o que está bem para ti, está bem para mim. Mas eu gostava sempre de saber que ela gostava das mesmas coisas que eu.
A minha vida foi muito sofrida, sabe menina. Chorei muito. Por isso é que eu agora tenho cataratas. E este último desgosto só não me levou porque ainda tenho que fazer nesta vida. Só resto eu para levar as flores aos meus mortos.
Sabe o que me custa, menina? Não é ser velha, não! Não é estar quase cega, que isso a mim nem me doi. O que me custa é que quando eu morrer não tenho quem me troque as flores do enterro. E não é a coisa mais triste de se ver, uma campa sem flores?

sexta-feira, outubro 13, 2006

Um pouco de céu

Dois dias fora do escritório, mesmo que em trabalho, fazem maravilhas!
Sozinha no Centro de Congressos do Estoril, senti-me que nem peixe na água! Conhecer pessoas novas, perceber que há muito mais para além destas quatro paredes e deste trabalho que me envelhece mil anos a cada semana que passa, e principalmente que as portas estão abertas para mim, foi como uma lufada de ar fresco! Não, a minha vida profissional não tem que se resumir para sempre a o que agora é, às hierarquias estanques, ao cinzentismo generalizado, às críticas negativas, ao ridicularizar de ideias novas, ao comentário mesquinho e ao olhar de censura à minha boa disposição.
Valeu nem que seja pelo aperto de mão firme e sincero das pessoas que me disseram olhos nos olhos "se precisar de alguma coisa, seja o que for, não hesite em contactar-me".
Ontem ao final da tarde, na Marginal a caminho de Lisboa resolvi fazer uma paragem em Carcavelos. Precisava de pisar a areia da praia. Lá fui eu, vestidinha à executiva, de sapatuxo na mão até à beira mar molhar os pés. O dia acabou na esplanada, a ver o pôr do sol, a beber o batido de manga mais caro de sempre, com um sorriso nos lábios e enfiada nos meus próprios pensamentos megalómanos!
Até cheguei a pensar que seria interessante inscrever-me numa escola de surf! Mas foi só um devaneio de quem se esqueceu por algum tempo das coisas importantes e que de repente se lembrou que a vida é o que fazemos dela.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Bela Adormecida

Histérica! Hiperactiva! Insuportável!
Sim, é como eu estou hoje!
Pois é, meus caros, diz que ontem esteve bom tempo, mas a verdade é que passei o feriado a dormir como se não houvesse amanhã - hoje, portanto!
Não sei que mosca me picou, mas andei o dia inteirinho a arrastar-me enrolada na manta do sofá e nos lençois da cama, com duas gatas igualmente ensonadas e dengosas que me seguiam em êxtase com tanta soneca.
Simplesmente não conseguia estar acordada!
E se pensam que à noite me custou a adormecer, enganam-se! Foi só meter uma sandes de queijo pela boca abaixo a fingir de jantar, e pimba! enfiar a cabeça na almofada até hoje de manhã. Se o despertador não tivesse tocado, ainda hoje lá estava, tal qual Bela Adormecida, à espera da beijoca do Príncipe. E ainda bem que tocou, porque ao que parece não há cá beijocas reais até Sábado - humpf, já não há Príncipes como antigamente!
Levantei-me, tomei uma banhoca revigorante com o meu novo gel de banho de aromaterapia, tomei o pequeno almoço e despedi-me das gatas que me lançaram um daqueles olhares de desdém que só elas sabem fazer, como quem diz "Vais embora, traidora!Depois de tudo o que passámos juntas...".
Conclusão, de Bela Adormecida passei a Bela Acordada, a minha cara não tinha este aspecto há tréculos! Nada de olheiras, nada de papos nos olhos, nada de borbulhas gosmentas!
Pena é que não dure muito, logo à noite tenho noitada de Princesas lá em casa! Uiii o vinho!!!

quarta-feira, outubro 04, 2006

Post que pretende redimir a autora da converseta de gaja do post anterior, proporcionando um pequeno agrado aos leitores do sexo masculino.

terça-feira, outubro 03, 2006

Como reconhecer mulheres com TPM, Noivas e Grávidas

Ontem à noite fui tomar café com a Di, com a Filipa - irmã da Di -, e o respectivo marido. Motivo? Não é que tenha que haver algum em especial, mas queria dar umas beijocas na barriga da Filipa que está grávida de 3 meses, e umas beijocas no trombil da Di que vai para Macau até Dezembro, altura em que volta para casar.
Na despedida, a Filipa e a Di emocionaram-se e desataram as duas naquele pranto tipicamente feminino, ou seja, entre lágrimas e gargalhadas. Aquilo não era comigo, mas como é óbvio não podia ficar de fora e lá se soltaram umas lagrimitas marotas e emocionadas.
E assim foi! As três do costume em plena rua principal de Campo de Ourique, abraçadas entre lágrimas felizes, perante o olhar incrédulo e envergonhado do Filipe, o único ser do grupo cujas hormonas e nervos apresentavam os níveis normais.