quinta-feira, outubro 26, 2006

Baú das Recordações

Ao chegar a Macau com 10 anos de idade, o que mais me custou foi a repentina falta de referências da minha vida em Portugal. Levei o meu Urso Sarafim, três fotografias com o meu grupo de amigos lá da rua, que ficaram num estado miserável à custa de tantos apertos e lágrimas de saudades, e pouco mais. Os primeiros tempos foram, sem dúvida, muito difíceis!
Quando a decisão de sair de Macau e voltar para Portugal se tornou definitiva eu tinha 18 anos e lembro-me que a minha maior preocupação foi juntar numa espécie de arca tudo o que pudesse levar de recordações dos últimos oito anos.
Esse caixote foi selado e marcado a caneta preta "Coisas da Mia. Top Completamente Secret". Viajou 18.000 km de barco, durante dois meses dentro de um contentor, para vir parar ao 3º andar de um prédio em Lisboa. Cheguei a Portugal há mais de seis anos e só ontem à noite é que me senti capaz de o abrir.
Nem dá para imaginar a quantidade de recordações que o caixote me trouxe. A minha primeira carta de amor - estavam lá mais, mas não há carta de amor como a primeira -, textos escritos por mim que ganharam prémios na escola, cadernetas de estudante desde o 5º ano, correspondência infinita entre mim e a Filipa - embora vivessemos no mesmo prédio e no mesmo andar -, textos de todas as peças de teatro que fiz, fotografias das mesmas, os diários, uma carta aberta à directora de turma do 9º ano, bilhetinhos patéticos de colegas com combinações de bate-pé e de curtes atrás do pavilhão, cassetes de vídeo com novelas que inventava com as minhas amigas, mapas de Macau, bilhetes dos concertos de Santos e Pecadores, Xutos e Pontapés, Madredeus, Pedro Abrunhosa, Delfins, bilhetes de avião para a Tailândia, bonecada que não acaba mais, um copo de shot "Gold Strike", postais, velas, listas de desejos para 1992/3/4/5/6... e em todas elas o desejo número um era "Que o Zé Madeira grame de mim", bases de copos dos bares, um maço vazio de Marlboro, bilhetes de festas de finalistas, um jogo dos espíritos, um dossier com recortes do Bon Jovi, do Jared Leto, do Tom Cruise, do FCP, do Jim Morrison...
Fiz uma viagem incrível por aquilo que já foi o meu Mundo. Ri-me, emocionei-me, tive vergonha, encontrei coisas que já lhes perdi o significado, outras não as consegui ler.
A noite de ontem durou oito anos e tinha o aroma doce dos templos chineses.

4 comentários:

Lipa disse...

É tão saboroso recordar essas coisa não é??
Mesmo não tendo indo para tão longe, e mesmo ter vivido sempre no mesmo sitio, ao recordar e abrir o Baú das recordações sinto o mesmo que tu... Dá umas saudades!

Beijinhos

Nocas disse...

Eu guardo milhentas coisas...tantas que quando as revejo, já nem lembro porque guardei! De qualquer forma, sou portuguesa...saudosista por natureza...adoro recordar :) É tão bom!!!

Rosebud disse...

Gramei bué esta partilha ;))))

**

eric_draven disse...

Não me conheces...
Nem eu a ti..
Sou um amigo do Ruben, e ele um dia recomendou-me o teu blog.

E ao ler o teu post não pude deixar de lamentar nunca ter contruído um "baú de recordações" assim...fisico, que pudesse abrir um dia.

Mas o teu Mundo não foi, ainda é! E o que somos é um reflexo daquilo que fomos.