terça-feira, julho 05, 2005

Como gente grande!

Não sei como nem porquê, mas um dia acordei e era adulta.
De repente tinha um cartão da Segurança Social para tirar, uma inscrição nas Finanças para fazer, uma conta no banco para abrir, coisas para descontar, outras para declarar, outras ainda para pagar e facturas para guardar - durante 5 anos, dizem eles...gente que tem aquela doença de atulhar lixo em casa até eventualmente ser encontrado morto por asfixia, digo eu.
Finalmente endendi que tudo aquilo que eu achava aborrecido no passado: comprar o selo do passe, tirar fotografias para as fichas dos professores, as filas para renovar o BI, etc, não era mais que uma preparação para o que ainda estava para vir, e que eu, na minha cabecinha cheia de Bon Jovi e cigarros fumados às escondidas na casa de banho do liceu, nem imaginava!
Como pessoa totalmente preparada para a mudança, que sou, experimentei em frente ao espelho o melhor ar de adulta que consegui. Mas quando dei por mim às 8:30 da manhã numa sala a cheirar a pombas mortas, com uma senha D00077 na mão, os olhos pregados a um ecrã que apita cada vez que muda o número, percebi que não ía ser assim tão fácil.
Se a porra do sítio abre as 8:30 e eu estava lá dentro exactamente a essa hora, expliquem-me como é que tinha 76 pessoas D à minha frente! Aquela gente dorme lá? Será que tinha que ter pago a alguém para ter uma senha decente? Deve haver alguma candonga nisto, só pode!
Entre cigarros e cabeçadas na porta de vidro da Segurança Social, esperei duas horas e meia para que finalmente o ecrã apitasse o D00077. Sentei-me em frente a uma senhora cinzenta e tentei perceber se o cheiro a pombo morto emanava dela.
Devia estar um bocado distraída, porque quando voltei à realidade, a senhora cinzenta olhava fixamente para mim, e sem qualquer sorriso disse: Sim?!?
Eu tenho o maior respeito pelos funcionários públicos. É gente que tem todas as regalias, mas não o pode demonstrar, tendo que esconder tamanha felicidade numa cara trombuda. Trabalho difícil, coitados!
Respondi: Ah, pois...olhe, eu precisava do meu número da segurança social, porque lá no trabalho...
Ela arrancou-me da mão o formulário previamente preenchido, carimbou-o e disse-me secamente: Segundo Andar.
Duas horas e meia para um carimbo...e lá fui eu para o segundo andar, que afinal nao era mesmo no segundo andar, mas no terceiro, porque parte do segundo estava em obras, e como havia imensa poeira decidiram mudar os computadores para o terceiro andar e deixar somente a papelada no segundo, porque os computadores podiam estragar-se enquanto que aos papeis era só dar-lhe uma espanadela e pronto, como novos... - sim, eu ouvi isto...
Chegada ao segundo/terceiro andar, sou acolhida por outra senhora cinzenta, à qual expliquei o motivo da minha presença. A senhora riu-se na minha cara e informou-me: Ai quer o número agora?! Tem ideia de quantos processos temos em cima da mesa à espera de ser passados para o computador?
Pausa. Olhei incrédula para senhora cinzenta, que me disse prontamente: O que eu lhe podia fazer era colocar a sua folha por cima das outras...
Fui-me embora. Mais uma vez sem perceber se devia ter pago qualquer coisa a alguém...

2 comentários:

comendador saraiva disse...

Ai quer o número agora?! É que é já a seguir, é já a seguir...

mdf disse...

e há tantas burocracias que me assustam à medida que vamos crescendo...

ainda para mais a minha pessoa tem uma tendência a mandar tudo o que é facturas, recibos e cartas de entidades com as quais sei que tenho algo...para o lixo!

é impossível idealizar uma casa simplista com um armário para guardar essas tralhas... tsss tssss

beijinho