O Natal, tempo de famíliaEste ano, pela primeira vez, o Natal é Chez Mia (para o leitor mais pobre: em minha casa).
Comecei logo a entrar em êxtase: a ver revistas sobre decorações de Natal, pesquisar e treinar receitas de arroz doce, comprar um presépio, 10 bolinhas-de-árvore-de-Natal novas para juntar às 1.500 que já tinha, um penduricalho para a porta de casa, loiça a contar com toda a gente e umas cuecas com motivos erotico-natalícios.
Ando que nem posso, ansiosa pelo dia 24 e indignada por viver numa porcaria de cidade onde não neva! Onde é que já se viu? Com uma mesa-de-Natal-capa-da-Caras e nem um floco branco na janela!
Bom. Andava eu a assobiar o "Glória in excelsis deo" enquanto cumprimentava os animais do bosque, quando o óbvio se revelou na minha cara (som de carro a travar a fundo): a Sogra, pessoa tão adepta do Natal quanto eu, também tem ideias para o evento.
A coisa começou de mansinho, "Ah, eu levo uma torta de laranja", "E se eu fizesse um arroz de pato para o almoço de dia 25?".
Depois meteu a terceira, "Eu faço lá as farófias, que é num instante", "Eu levo as minhas panelas".
Até que, sentindo a viatura a engasgar-se de esforço, mete a quinta. Abriu a gaveta da sala e disse-me:"Tenho aqui uma tolha de Natal para a mesa. O que achas?".
E pronto! Aqui pára tudo! PÁRA TUDO!
A minha mesa de Natal, pensada e sonhada a branco, dourado e encarnado, tipo capa de revista. Os guardanapos de pano. Os marcadores e o centro de mesa. Os copos de vinho. As velas. Tudo isto me passou num milésimo de segundo pela cabeça, enquanto suspendia um sorriso na cara.
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Agora é a parte da estória em que recomendo os meus leitores mais sensíveis, aqueles que esperavam encontrar neste texto um conto de Natal cheio de esperança, amor e compreensão, a abandonar o estaminé, porque o que se segue é, de facto, muito feio!
Já está?
Sim?
Obrigada.
Para os insensíveis, nogentos e descrentes da bondade humana, a estória continua assim:
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Procurei, com os olhos raiados de pânico, o olhar do T., como que a suplicar salvação, mas sem efeito. O homem estava com a cabeça enterrada no prato, a respirar com dificuldade, enquanto deglutia um peixe assado, batatas, salada, pão, azeitonas, queijo e presunto, tudo ao mesmo tempo, e nem sequer estava a ouvir a conversa.
Em desespero, tive que sacar da arma de manipulação mais poderosa que tenho. Fiz olhinhos de bambi e disse: "Obrigada, mas já tenho toalha de Natal. Gostava de usar a da minha mãe".
Agora vocês passam-me a mão pela cabeça e dizem-me: "Oh Mia, que disparate! É normalíssimo quereres ter a toalha de mesa da tua falecida mãe, na noite de Natal para te lembrares dela. Não és nada má pessoa! Aliás, até és uma das melhores pessoas que nós conhecemos!"
Caríssimos, não se iludam, eu sou mesmo um escroto! A minha mãe não lavava roupa à mão, não fazia bolos, nem tinha napperons, quanto mais toalhas de Natal!
Pronto, já tiraram a mão da minha cabeça, horrorizados? Eu sei, eu sei, não foi nada bonito, mas tratou-se de uma questão de sobrevivência!
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Está aí alguém?