Não me consigo decidir. Não sei se O mande à merda ou se Lhe agradeça. Primeiro pedi para que não ma levasse. Depois supliquei para que a levasse o mais depressa possível. E Ele levou-a. Pelo menos foi o que disse o Diácono. O Diácono chamava-a de Maria e eu quase que interrompi a cerimónia para o corrigir "Senhor Diácono, desculpe mas Maria era a minha avó. A minha mãe é Maria da Conceição. Ou então, se preferir, só Conceição. Não me leve a mal, não, mas já me parece tão pouco real que ela tenha morrido, quanto mais chamarem-na Maria. Parece o funeral de outra pessoa." Apetecia-me dizer-lhe outras coisas, mas acho que as pessoas iam ficar ofendidas.
As pessoas ofendem-se muito. Tinha vindo de Lisboa numa correria, de tal forma que começava a suspeitar da minha sanidade mental. Se calhar estava a precipitar-me, toda a gente me dizia que não era preciso, que era tarde para me por à estrada, que não me preocupasse porque estava tudo controlado, se ela até ía para casa! Mas bolas, pensava eu, preocupada já eu estou. É igual preocupar-me em Lisboa ou preocupar-me em Coimbra. Bom, a correria foi tanta que vim de chinelos. Vermelhos, dos chineses, um euro e meio. E depois ela morreu e eu não tinha mais sapatos. Morreu-me nas mãos e eu de chinelos vermelhos, dos chineses, um euro e meio. Velei-a de chinelos vermelhos, dos chineses, um euro e meio. Ía enterra-la de chinelos vermelhos, dos chineses, um euro e meio, mas depois as pessoas ofenderam-se muito e tive que pedir emprestadas umas sandálias pretas à minha tia. Foi uma sorte, é raro encontrar pessoas com o pé do tamanho do meu. Mas encontrei e as pessoas ficaram muito mais descansadas. O alívio foi tão grande que a minha tia até me queria oferecer as sandálias, que me ficavam tão bem. Fiquei a pensar que se não as tivesse calçado o mais certo era não a enterrarem, tal era a ofensa.
As pessoas encolhiam os ombros e diziam-me "a vida é assim", e apetecia-me responder-lhes que não, que a vida não é nada assim. Que a vida é outra coisa, não sei bem o quê, mas que assim é que não é. "A morte é que é assim", queria dizer-lhes, mas as pessoas só ficam para dar beijinhos a mim, ao meu pai e ao meu irmão, a mim, ao meu pai e ao meu irmão, a mim, ao meu pai e ao meu irmão, beijinhos, beijinhos, a mim, ao meu pai e ao meu irmão, beijinhos, e não há tempo para explicar seja o que for, porque a seguir a mim vem o meu pai e o meu irmão, e há muita gente na fila para dar beijinhos a mim, ao meu pai e ao meu irmão. E depois também há aquela coisa que já vos falei, que as pessoas se ofendem muito.
Não condeno as pessoas. Fazem-me rir. E agora, com os chineços vermelhos, dos chineses, um euro e meio, calçados continuo sem saber se O mande à merda, ou se Lhe agradeça.