sexta-feira, setembro 21, 2007

Os Não-Problemas

A minha tia Graça, uma eterna solteirona irmã do meu pai, liga-me três vezes por dia a perguntar se tenho comido. Não me diz mais nada, só pergunta se já comi ou se vou comer. Eram onze da manhã e ligou-me a perguntar se eu já tinha almoçado. Quando lhe respondi que ainda era cedo e que costumava almoçar por volta da uma da tarde apressou-se logo a perguntar-me "Mas vais almoçar, não vais Mia? Promete que vais comer qualquer coisinha, tá bem?".
Invejo as pessoas que deixam de comer quando têm desgostos. As pessoas que comem dois bagos de arroz, cheiram o entrecosto de nariz enjoado e arrumam os talheres direitinhos do lado direito do prato cheio, dão-me canitos. Quem me conhece sabe que não faço parte dessa gente que fica elegante na tristeza. E o bem que me fazia uma certa falta de apetite, que o diga a baba-de-camelo que comi de enfiada hoje à tarde a ver a Oprah - que curiosamente falava de truques para emagrecer!
Já as primas da minha mãe perguntam-me se ando a dormir. Por várias vezes me disseram para tomar meio comprimido à noite para adormecer. Da parte que me toca, continuo com o sono de antigamente. Sempre dormi em qualquer lado, de qualquer maneira, até sentada. Não estranho camas, chão, tendas, barulhos e luzes.
Como e durmo bem. Os meus problemas não são esses.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Não me consigo decidir. Não sei se O mande à merda ou se Lhe agradeça. Primeiro pedi para que não ma levasse. Depois supliquei para que a levasse o mais depressa possível. E Ele levou-a. Pelo menos foi o que disse o Diácono. O Diácono chamava-a de Maria e eu quase que interrompi a cerimónia para o corrigir "Senhor Diácono, desculpe mas Maria era a minha avó. A minha mãe é Maria da Conceição. Ou então, se preferir, só Conceição. Não me leve a mal, não, mas já me parece tão pouco real que ela tenha morrido, quanto mais chamarem-na Maria. Parece o funeral de outra pessoa." Apetecia-me dizer-lhe outras coisas, mas acho que as pessoas iam ficar ofendidas.
As pessoas ofendem-se muito. Tinha vindo de Lisboa numa correria, de tal forma que começava a suspeitar da minha sanidade mental. Se calhar estava a precipitar-me, toda a gente me dizia que não era preciso, que era tarde para me por à estrada, que não me preocupasse porque estava tudo controlado, se ela até ía para casa! Mas bolas, pensava eu, preocupada já eu estou. É igual preocupar-me em Lisboa ou preocupar-me em Coimbra. Bom, a correria foi tanta que vim de chinelos. Vermelhos, dos chineses, um euro e meio. E depois ela morreu e eu não tinha mais sapatos. Morreu-me nas mãos e eu de chinelos vermelhos, dos chineses, um euro e meio. Velei-a de chinelos vermelhos, dos chineses, um euro e meio. Ía enterra-la de chinelos vermelhos, dos chineses, um euro e meio, mas depois as pessoas ofenderam-se muito e tive que pedir emprestadas umas sandálias pretas à minha tia. Foi uma sorte, é raro encontrar pessoas com o pé do tamanho do meu. Mas encontrei e as pessoas ficaram muito mais descansadas. O alívio foi tão grande que a minha tia até me queria oferecer as sandálias, que me ficavam tão bem. Fiquei a pensar que se não as tivesse calçado o mais certo era não a enterrarem, tal era a ofensa.
As pessoas encolhiam os ombros e diziam-me "a vida é assim", e apetecia-me responder-lhes que não, que a vida não é nada assim. Que a vida é outra coisa, não sei bem o quê, mas que assim é que não é. "A morte é que é assim", queria dizer-lhes, mas as pessoas só ficam para dar beijinhos a mim, ao meu pai e ao meu irmão, a mim, ao meu pai e ao meu irmão, a mim, ao meu pai e ao meu irmão, beijinhos, beijinhos, a mim, ao meu pai e ao meu irmão, beijinhos, e não há tempo para explicar seja o que for, porque a seguir a mim vem o meu pai e o meu irmão, e há muita gente na fila para dar beijinhos a mim, ao meu pai e ao meu irmão. E depois também há aquela coisa que já vos falei, que as pessoas se ofendem muito.
Não condeno as pessoas. Fazem-me rir. E agora, com os chineços vermelhos, dos chineses, um euro e meio, calçados continuo sem saber se O mande à merda, ou se Lhe agradeça.

quinta-feira, setembro 13, 2007

...
Por ela, e confesso que também por mim, menti-lhe. Já não conseguia ouvir a preocupação e às vezes a raiva. Se ela soubesse que coisas infinitas me preocupam mais que isso... Tinha que nos tirar pelo menos esse peso de cima. Disse-lhe que tinha conseguido o emprego e que ía começar a trabalhar na primeira semana de Outubro. Menti-lhe. Ela ficou feliz. Ironia do destino, desliguei o telefone e vim ver os e-mails. Lá estava ele, o tal que me agradecia profundamente, mas que se apressava em dizer-me - caso eu tivesse ainda alguma dúvida - que os seleccionados para segunda fase da candidatura tinham recebido um telefonema. Eu não recebi telefonema nenhum. É assim, as boas notícias dão-se pelo telefone, as más por e-mail. Por isso é que lhe telefonei. Porque era uma boa notícia. Acredito que quando ela morrer me enviem um e-mail.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Estimados Clientes,

Por motivos de tristeza profunda, somos forçados a encerrar o estaminé por tempo indeterminado. Esperamos que a pausa seja breve e pedimos desculpa pelo incómodo.

A Gerência